SPT MAGAZINE – RELAÇÃO OBJETAL PRIMÁRIA: UMA NOVA LEITURA

RELAÇÃO OBJETAL PRIMÁRIA: UMA NOVA LEITURA

Por  Genovino Ferri  e Mary Jane A. Paiva

 

Para falarmos em relação objetal primária, é preciso, antes de mais nada, esclarecer que a nossa perspectiva é aquela da observação dos fenômenos da vida – nós olhamos para suas causas e suas sequencias temporais. Oferecemos uma perspectiva que acreditamos seja aceitável e coerente com a flecha do tempo evolutivo, que só pode ser o tempo de toda a existência de uma pessoa, a partir da sua concepção.

Trata-se de uma posição de observação complexa e sistêmica com uma alta coerência epistemológica e tridimensional. Na verdade, observa-se o tempo total de vida de uma pessoa: as relações, o tempo dos padrões relacionais, o corpo, o cérebro e o seu pensamento.

Esta é uma leitura a partir da visão clínica e analítica da psicopatologia e do inconsciente na medida em que se relaciona com o tempo filo-ontogenético – o tempo em que os sinais gravados das relações são armazenados no corpo e nos estágios evolutivos. É a consciência da história biológica e biográfica de uma pessoa no seu aqui e agora. Sob a luz da complexidade, este tipo de abordagem observa a inteligência da vida e vê a pessoa como um sistema psicobiológico vivo e complexo que se origina na fecundação – o nascimento de um novo núcleo energético – que é o Si, e a sua relação com o Outro de Si, a partir da vida intrauterina em diante.

 

Esta leitura mostra que o desenvolvimento da vida tem uma direção entrópica evolutiva descendente (top-down), da ordem para a desordem. Essa lei da termodinâmica é chamada de “Lei da Dissipação de Energia”, e se refere à observação do tempo externo, o tempo da cognição.

Entretanto, o desenvolvimento da vida também tem uma direção evolutiva neguentrópica ascendente, movendo-se da desordem para a ordem (Schroedinger, 1995). Essa direção é considerada ascendente (bottom-up) quando se observa o tempo interno; por exemplo, o nascimento de uma pessoa, ou a origem de um relacionamento – o tempo das emoções, dos sentimentos e dos relacionamentos.

Na história continuamente evolutiva dessa nova perspectiva psico-corporal, Freud (1938) introduziu os estágios evolutivos e os objetos relacionais, Reich (1932) introduziu os níveis corporais, e Ferri (2016, 2017) conectou as fases relacionais e os níveis corporais.

Dessa maneira, a psicopatologia fica mais forte e retorna para o canal analítico com a inclusão do corpo. Neste modelo analítico e clínico da psicoterapia, podemos observar três tipos de linguagem: verbal, corporal e relacional.

UMA NOVA LEITURA

Com a inclusão da corporeidade, a relação objetal primária – a nossa fase biológica da relação com a mãe – aparece em dois mundos analíticos diferentes. O mundo dentro e fora do útero, o tempo do pós-parto; em ambos os mundos a comunicação é intercorpórea e pré-subjetiva.

O mundo dentro do útero é composto pelos fluidos intrauterinos, pela placenta, pelo cordão umbilical, e pelo líquido amniótico. O nascimento conduz o indivíduo para o mundo externo, para outra relação corpórea, para o peito, para os lábios, para o leite, para o ar e para o contato epidérmico.

De fato, a fase oral pode ser subdividida em dois intervalos temporais distintos. A primeira fase se refere ao tempo intrauterino – nove meses – a segunda se refere à fase oro-labial – seis meses após o nascimento – a amamentação líquida.

O aparecimento dos primeiros dentes representa uma clara indicação para alimentação sólida, e com os dentes se inicia o desmame. O desmame é a segunda grande separação que marca a saída gradual da relação primária objetal e a entrada na fase da subjetividade. A aquisição da função da musculatura estriada, a posição em pé, a locomoção, a visão estereoscópica -tridimensional e a evolução dos circuitos motores trazem o desenvolvimento do “Eu-Sujeito”.

O “Eu-Objeto” vem à nossa mente como o “Eu-Sujeito” (Damasio, 2012). Conquistamos a dimensão do tempo-espaço e a possibilidade de fixar a memória explícita no hipocampo – a área do armazenamento central da memória explícita – de forma a indicar o começo da fase da subjetividade. As memórias explícitas se juntam às memórias implícitas que estão armazenadas na amígdala – a área central de armazenamento da memória implícita – antes da fase da subjetividade.

“O Nascimento e o processo do Parto são eventos extraordinários que resultam em um sinal gravado determinante na formação do nosso caráter.”

Para esclarecer o conceito de relação objetal primária, veremos a seguir alguns exemplos.

PRIMEIRO ESTÁGIO ORAL RELACIONADO COM O TEMPO INTRAUTERINO

A movimentação fetal é o modo natural em que o diálogo caloroso e contínuo, entre a mãe e o filho, ocorre antes do nascimento (Janniruberto, Zulli & Catizone, 1982).

A mãe é o húmus fértil onde o feto realiza suas trocas e estabelece suas primeiras relações, ainda em um tempo pré-subjetivo e intercorporal.  Esta é a base para um crescimento equilibrado e uma boa definição biológica com a mãe. No estágio intrauterino – a fase da primeira grande boca – coincide com a área umbilical-abdominal que é o nível corporal relacional prevalente neste período da vida, numa visão ascendente (bottom-up).

O diálogo entre o feto e a relação mãe-útero objeto pode ser suficiente, insuficiente ou excessiva. A sua modalidade define o grau de “resiliência primária” de uma pessoa, que é fundamental para o seu desenvolvimento evolutivo e psicopatológico.

Outro exemplo da relação objetal primária do feto com a mãe-útero no período periparto: uma mãe suficiente (suficientemente boa) cria um contato saudável por meio de seu calor nutriente. Isto é essencial para uma boa mielinização através da vida intrauterina e para os meses imediatamente seguintes ao nascimento. De fato, essa relação é uma base importante para um diálogo adequado da pessoa com o mundo através da história das suas relações emocionais, como foi afirmado por Stephen Porges (2014) no seu estudo do circuito ventral vagal e como foi destacado por Genovino Ferri (2016, 2017).

Uma mãe insuficiente ou excessiva poderia criar alarme ou apego, e, portanto, gerar uma oralidade insuficiente ou reprimida que poderia ser uma plataforma pré-subjetiva para o desenvolvimento de Depressão e/ou Distúrbio de Personalidade Borderline.

Ressaltamos a importância da inclusão do corpo na psicoterapia, juntamente com a história biológica e biográfica da pessoa. De fato, encontrar o nível corporal – estágio temporal e corporal – no qual é possível reatualizar a sua psicopatologia, faz com que seja mais fácil compreender a psicopatologia e o inconsciente que está subjacente. Este processo permite que se tenha uma avaliação diagnóstica mais precisa.

SEGUNDO ESTÁGIO ORAL RELATIVO AO TEMPO OROLABIAL

Nesta fase, um nível corporal relacional diferente é prevalente: a boca – a boca do recém-nascido e a relação objetal primária mãe-bico do seio.

Aqui, uma mãe suficientemente boa cria um contato por meio dos neurônios espelho (Gallese, Migone & Eagle, 2006). O seu leite e o seu calor geram níveis de serotonina suficientes para criar segurança, autoestima, e confiança no bebê, que são nutrientes fundamentais para garantir uma boa mielinização e, portanto, proporcionando uma rápida comunicação.

Uma mãe insuficiente ou excessiva poderia criar, respectivamente, dependência ou apego, e também insegurança, levando a uma tendência regressiva no crescimento do bebê. Esta condição poderia também representar uma plataforma pré-subjetiva para o desenvolvimento de distúrbios alimentares e/ou abusos. Nesta fase, a sustentabilidade da mãe não é representada apenas pela amamentação, mas é principalmente caracterizada pela qualidade dos cuidados que ela tem com o bebê. De fato, a sua condição psicofísica e emocional influencia a sua relação com o bebê.

Exemplos de perturbação ocorrem quando a mãe não pode amamentar devido a angústia, ansiedade, depressão pós-parto, ou qualquer outro obstáculo ao contato ou à ligação entre a mãe e seu filho por parte da mãe. Neste caso, podem surgir alguns problemas, como por exemplo, sentimentos de perda, abandono, baixa autoestima e equivalentes depressivos.

 

SIMULAÇÃO ENCARNADA

Os exemplos acima mencionados nos permitem rever o conceito de “Simulação Encarnada” dentro da função do neurônio espelho (Gallese, Migone, & Eagle, 2006).

Nós vemos a simulação encarnada como sendo um mecanismo específico através do qual o nosso sistema mente/corpo modela a nossa interação com o mundo. Essa simulação pode adquirir uma característica terapêutica graças à leitura da contratransferência que o psicoterapeuta faz dos seus traços de caráter (Ferri and Cimini, 2018). Isso surge do diálogo inconsciente entre a pessoa analisada e o analista. Dessa forma, se pode obter uma posição mais adequada do psicoterapeuta na relação com a pessoa de acordo com as suas necessidades, as quais emergem no setting psicanalítico. Portanto, a psicoterapia poderia usar ativações terapeuticamente encarnadas através de modelos de ações ou “actings”, que são movimentos ontogênicos adequados às questões que são levantadas no setting (Ferri, 2016,2017). Os actings são especificamente direcionados para o nível corporal relacional prevalente desse estágio evolutivo, são um caminho periférico aferente pelo qual acessamos as áreas centrais a fim de harmonizar aquele nível corporal relacional.

“O parto e o nascimento resultam em diferentes imprints na nossa história biológica e biográfica”.

Os processos do parto e do nascimento são eventos extraordinários que resultam em um sinal gravado determinante na formação do nosso caráter, identificando a primeira separação real de nossas vidas, a passagem do interior para o exterior.

É importante observar que uma eventual ameaça de aborto, no período intrauterino, pode representar uma ameaça vital de separação para o embrião-feto devido à sua total dependência biológica de sua mãe. Então, perguntamos: o que esta ameaça causa nos fluidos fetais e da placenta? Os valores dos neurotransmissores, dos elementos bioquímicos, etc. se alteram? Com qual intensidade uma angústia pré-subjetiva de morte poderia ser armazenada na amígdala (a área de armazenamento do medo)? E poderia ser um co-fator pré-dispositivo no desenvolvimento da personalidade de uma pessoa?

O parto e o nascimento resultam em diferentes sinais gravados na nossa história biológica e biográfica. Esses imprints indicam as principais modalidades e abordagens comportamentais das nossas futuras separações; esses elementos também contribuirão para caracterizar nossa relação objetal primária.

Por exemplo, eventos de perda e separação de um indivíduo caracterizado por um primeiro estágio oral, com baixa resiliência, pode causar desordem e alarme. Entretanto, em indivíduos com uma boa resiliência intrauterina, o fato de ter tido um parto distócico poderia representar uma plataforma pré-subjetiva para a reatualização de problemas de pânico, quando estiver em uma fase de transição e/ou poderia determinar um distúrbio de ansiedade de separação.

CONCLUSÃO

A inclusão do corpo, na nossa visão, nos proporciona uma leitura do sistema vivente complexo por meio de diferentes lentes, obtendo um diagnóstico mais preciso e um projeto mais apropriado, com uma metodologia adequada e replicável.

Refletimos o quanto a nossa “modernidade líquida” – escorrendo pelo tempo como líquidos sem uma forma ou contorno, pois não há tempo e espaço suficientes para se ter um formato –  é liquefeita pela velocidade (Bauman, 2003) – hoje em dia, pode se transformar e representar um sinal gravado para a relação objetal primária e para a relação perinatal.

Portanto, evitamos o risco de ficar perdidos na complexidade sem corporeidade e, desse modo, evitamos o risco da psicoterapia líquida e “amorfa”, que pode ser o reflexo do nosso risco atual de modernidade líquida.

Vivemos em um tempo com mais instantes e menos raízes, mais emoções e menos sentimentos (que são feitos de tempo), mais excitação e menos consciência, mais comunicações e menos relações (que também são feitas de tempo), mais informações e menos sabedoria. Estamos mais a tempo de, do que no tempo de, mais na superfície do que na profundidade. Nós somos um corpo social vivo que hoje em dia se move na direção da redução da serotonina, o neurotransmissor 5HT, que está associado ao afeto, e a um aumento da dopamina (DA), que é um neurotransmissor associado com a ação, que é, na verdade, uma depressão mascarada pela aceleração.

Na nossa relação objetal primária, é fundamental ter uma boa nutrição afetiva. A falta de tempo e a falta de nutrição (de cuidado de boa qualidade afetiva) poderia determinar uma expressão corporal alterada. Isso poderia levar à perda do sentido da vida e do significado do corpo na história das relações dessa pessoa.

 

Referências Bibliográficas

Bauman, Z. (2003). Modernità Liquida . Bari, Laterza Ed.

Bertalanffi, L. Von (1971). Teoria generale dei Sistemi . Torino, Isedi Ed.

Damasio, A. (2012). Il Se viene alla Mente . Milano, Adelphi Ed.

Ferri, G. (2016). The mind…the embodied mind…the enactive mind…the trait mind.

Somatic Psychotherapy Today, 6(1).

Ferri, G. (2017). Body sense. eBook. Alpes Ed.

Ferri G., & Cimini G. (2018). Psychopathology and character. eBook. Alpes Ed.

Freud, S. (1938). Compendio di Psicoanalisi. O.S.F.Bollati Boringhieri Ed.

Gallese, V., Migone, P., & Eagle, M. N. (2006) La simulazione incarnata: i neuroni specchio, le basi neurofisiologiche dell’ intersoggettivitá e alcune implicazione per la psicoanalisi. Ed. Unipr.it

Janniruberto, A., Zulli, P., & Catizone, F. A. (1982). Motricità e vita psichica del feto.

Argomenti di Ostetricia e Ginecologia, CIC.

Porges, S. (2014). La teoria polivagale . Roma: Fioriti G. Ed.

Reich, W. (1932) Analisi del carattere . Milano: Sugar Co Ed.

Schrodinger, E. (1995). Che cosa é la Vita? Milano: Adelphi

 

GENOVINO FERRI é Psiquiatra e Analista Reichiano. É membro da New York Academy of Sciences (N.Y.A.S.), é Diretor da Scuola Italiana di Analisi Reichiana (SIAR) e ministra Cursos de Especialização em Psicoterapia (desde 16-01-2004);

  • Ministra cursos de Treinamento Internacional para Supervisores em Berlin, São Paulo, Atenas, Sofia e Roma;
  • Presidente da Associação Italiana de Psicoterapia Corporal (A.I.P.C.);
  • Autor do livro Psychopathology and Character (Ed. Alpes 2012);
  • Autor do livro Body Sense: Stories of Psychotherapy Supervisions (Ed. Alpes 2017);
  • Ebook Body Sense. (Ed. Alpes 2017);
  • Ebook Psychopathology and Character. (Ed. Alpes 2018);
  • Diretor da coleção Mind Body Collection, Alpes Edizioni;
  • Director da Unidade Operacional do Complexo de Psiquiatria e Psicoterapia de Atri, Asl Teramo, Itália;

*Dirige o “Studio Analysis,” ambulatório Psicotherapia e Clínica Social de Atri, Itália.

 

MARY JANE A. PAIVA é psicóloga clínica, psicoterapeuta corporal, e Analista Reichiana formada por Genovino Ferri e Federico Navarro, e pratica essa modalidade há mais de 40 anos.

Depois de se graduar como psicoterapeuta clínica, Mary Jane se tornou uma especialista em psicanálise e psicoterapia corporal. Ela foi convidada para ser diretora e professora da SOVESP – Sociedade de Orgonomia e Vegetoterapia de São Paulo, Brasil – onde trabalhou por mais de 20 anos. Sua experiência vai muito além, e ela tem sido convidada para participar em palestras no mundo todo. Também tem escrito artigos para revistas no Brasil e em 1995, juntamente com mais três psicólogos, fundou o IBAR – Instituto Brasileiro de Análise Reichiana.

  • Pós graduada em Psicoterapia de Grupo com Xavier Serrano, Espanha. (1997-2000);
  • Pós graduada em Psicoterapia Corporal e professora no Instituto Sedes Sapientae, S. Paulo, Brasil (1982-1992);
  • Especialização em Energia Curativa e Auto Desenvolvimento no Brasil com I. Pristed e na Dinamarca com Bob Moore (1992-1996);
  • Professora da Universidade Senac, São Paulo, Brasil – lato -sensu – no curso Educador de Saúde e Prevenção da Neurose Infantil (2002-2005).

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